Há alguns tempos conheci alguém que não conseguia se desvencilhar dos inúmeros e-mails que recebia sem que pudesse lê-los. É engraçado, pois eu achava, naquele tempo, que ler esses e-mails seria inútil ou desnecessário. De certa forma, ainda considero esse fato verdadeiro, porque posso sobreviver sem olhar um desses e-mails, mas por outro lado, não há como negar a riqueza que existe dentro deles. Alguns são verdadeiras pérolas e outros apenas lixo.
Porém, não cabe a quem envia saber se algo vai ou não me sensibilizar, basta apenas que tenha agradado ao próprio remetente. E eu imagino que isso ocorra em todas as vezes que recebo um e-mail não seja pessoal... que ao menos a pessoa que envia tenha olhado e gostado e não apenas repassado um conteúdo que não tenha nem sequer apreciado o assunto. Penso assim e é dessa forma que faço, abro vejo e gosto, então repasso. Muitas vezes, até coloco meu pensamento a respeito e a forma como algo me chamou a atenção. Não vai nada que não tenha modificado o meu dia e muitas vezes a minha pessoa. Falo assim, pensando em várias coisas que vi e depois esqueci e não foram fortes o suficiente para marcar o meu jeito de ser, mas mesmo assim, acredito que é muito difícil sermos a mesma pessoa, mesmo depois de visitar um lugar muito bonito, tão sonhado e esquecido pelo avanço do tempo. Quando não somos indiferentes a um estímulo, a nossa química sofre uma reação, mesmo que a memória aparentemente desfaça qualquer lembrança. Porém, quando uma foto nos remete de volta ao passado, tudo se materializa, talvez um pouco amorfo, mas não completamente esquecida como se imaginava.
Afinal, se somos mais que carne e osso, a vida que carregamos em nossas veias se encarrega de mobilizar todos os músculos a ter uma feliz recordação. Então, ocorre a mágica que somente um animal racional pode ter: a união do passado e do futuro. É incrível como podemos ter a consciência do que já passou e daquilo que somos hoje.
Voltando ao devaneio dos e-mails, ironicamente me vejo tal e qual guardando todos os que recebi, afinal o Gmail me permite essa maldade e desperdício. Soa estranho armazenar coisas que não foram escritas para mim, pelo menos pessoalmente, e ter a consciência de que o tempo que me resta de vida não permitirá que veja todos. Não que vá morrer em breve, mas a minha vida tem muitas prioridades antes de me sentar em frente ao computador e deixar a vida passar pela janela do meu quarto.
Relembro o dia em que decidi não ficar mais assistindo aos telejornais. O máximo que faço é ouvir um rádio no carro quando vou ou volto do trabalho, mas só quando não tenho companhia. Naquela época descobri que poderia viver sem me preocupar com pacotes econômicos, queda na bolsa de Nova Iorque ou ainda uma crise nos Tigres Asiáticos. Nem por isso deixo de saber que há uma possível recessão nos Estados Unidos por acontecer ou já em curso. Estou resignado a compreender que vivo como se visse um tsunami lá no horizonte e eu posso correr da forma que puder, mas ela irá me pegar e eu não vou poder fazer nada. Devo apenas me preparar da melhor maneira possível para o impacto. Se eu me salvar, ao redor restarão apenas escombros de um acontecimento inevitável, indiferente à minha vontade. Como dizia meu amigo Simão: se não tem solução, resolvido está.
Apesar de toda essa meditação a respeito dos e-mails, devo, em tempo, admitir que os e-mails são muito melhores que os telejornais e não são tão voláteis. Muitos deles não ficam velhos com o passar dos tempos. Pode ser que isso explique o motivo pelo qual eu os guardo... para que algum dia possa contemplar alguns com o meu precioso tempo e quem sabe rir ou se emocionar e com certeza tornar-me alguém cada dia melhor. E por outro lado, quem é que ficaria guardando jornal velho em casa? Eu guardo livros e tudo mais que possa parecer tolo, mas tenha um valor de estimação, coisas como um trabalho de escola dos meus filhos, uma medalha, coisas que só eu sei o quanto valem...
Agora, se eu só falei em guardar coisas velhas, qual o motivo do título? O que isso tem a ver com limpeza? Na verdade, eu me senti motivado a escrever quando estava limpando uma gaveta e organizando as coisas e pensando o que era útil ou não.
Quando fizemos um evento de sensibilização para o "5 S" lá em Londrina, tive a honra de fazer a leitura de um trecho do livro Maktub, de Paulo Coelho na qual se narra a respeito de um povo que uma vez por ano pega suas coisas e questiona se aquilo ainda lhe serve, ainda é útil, se a lembrança que aquele objeto traz ainda significa alguma coisa e assim por diante. Lembrei-me desse fato e o que ocorre quando limpo minha gaveta e no entanto, não limpo minha caixa de e-mails... Parece contraditório, mas para mim, não é.
Qualquer dia, a hora que encontrar o trecho do livro, eu transcreverei para cá...
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