terça-feira, 26 de abril de 2011

Entre o Ser e o Ter

Outro dia naveguei pelo Orkut das minhas crianças e seus amigos e não pude deixar de perceber alguns deles com centenas de pessoas nas suas respectivas redes de relacionamento. Meus filhos me disseram que eles faziam competição entre eles para ver quem conseguiria ter mais conhecidos.
A minha criação que deve estar nos primórdios do abecedário desconhece o verbo ter nessa ênfase atual.
Por exemplo, eu penso que sou pai e não, o contrário, eu tenho filhos. Os filhos são emprestados a mim por Deus. Esta é a essência do batismo. E a diferença essencial entre o ter e ser é esta: não é preciso ter para ser.
Eu sou amigo. Eu não tenho quinhentas pessoas na minha rede de relacionamento. Eu devo ter mais de cinquenta, não sei. Não preciso contá-los, pois muitos deles nem possuem Orkut, mal sabem o que isso significa.
Eu mal consigo conversar com todos eles ao menos uma vez por ano, mas somos amigos. Continuamos a ser verdadeiramente amigos, porque ninguém é de ninguém. Meus amigos são emprestados a mim por Deus.

sábado, 23 de abril de 2011

A arte de ouvir...

Às vezes os problemas se acumulam, mas nada extrapola as paredes de nossa pele. Algumas vezes ela se denuncia por uma lágrima e deixa o nosso olhar um pouco entristecido pela vermelhidão dos olhos. Algo escondido fica visível contra a nossa vontade.
Não importa muito o quanto as dificuldades podem nos corroer, se é que podem. Na verdade, o que mais nos desanima é a perspectiva de caminhar sozinho. Na dança da vida cada um faz a sua parte sozinho.
O que corroe é a falta de um recanto, a ausência de um ombro no qual possamos simplesmente descansar.
Na hora das incertezas, precisamos de muito pouco, alguém para nos ouvir ou ainda simplesmente um abraço. Não nos custa nada e é um bem que nos faz bem também, resgatando nossa humanidade por vezes esquecida.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Feliz Recordação

Diz um antigo pensamento que "uma feliz recordação talvez seja sobre a terra, mais verdadeira que a própria felicidade..."
É errado dizer que somos pessoas felizes. O correto é dizer que estamos felizes.
Não importa muito até quando irá durar.
Nada é duradouro e no momento que acaba, as recordações impulsionam nosso corpo, atenuando a passagem.
Isso é o que acontece nos intervalos dos encontros e não percebemos. Valorizamos demais as grandes lacunas, como se ali fosse a chegada.
No filme Carros "o importante é a viagem e não o destino..." nos ensina a degustar e não somente alimentar.
E o mais importante é que podemos proporcionar felizes recordações uns aos outros. Não é tão simples fazer do nosso mundo, um mundo melhor, mas faça.

sábado, 2 de abril de 2011

José Alencar...

José Alencar, nos deixou um legado de muitas obras, nenhum monumento em praça pública e, sim, no coração de todos que tiveram a oportunidade de sua companhia.
Dentre os muitos exemplos que deixou e das muitas coisas que também disse, deixo abaixo uma das frases que reflete toda uma atitude de vida diante de Deus:

"Se Deus quiser me levar, Ele não precisa de câncer para isso.
E se Ele não quiser que eu vá, não há câncer que me leve..."

Roda-viva

É muito complicado dar um tempo para mim mesmo, oferecer-me uma opção de como gastar o meu tempo, fazer-me sentir um pouco livre e até ousar dizer que tenho algumas escolhas...
O tempo passa e rapidamente percebo que muitas vezes armazeno coisas inúteis, como a falta de tempo. E preservo também amigos, mas amigos não são para serem guardados ou preservados, mesmo que seja no coração, apesar de já estarem quase em extinção. Amigos são seres vivos, enquanto são vivos e precisam ser vividos.
Eu posso saber que tenho um jardim, mas se não for lá para contemplar as flores, acho que não tenho nada. Uma vaga lembrança é o máximo que posso me atrever a constatar.
Mas a vida é professora, que costuma oferecer deveres de casa e, por vezes, passa algumas lições práticas, marcantes, inesquecíveis, que são, por fim, um tanto quanto tristes. Aprendo da pior maneira possível, entendo coisas que muitas vezes já são tardes demais. Apesar de saber que esse exemplo será aplicado para o que resta da minha vida, vejo, no entanto, que aquele zero ficará riscado em meu boletim escolar, sem que eu tenha uma nova chance de mudá-lo.
Há alguns dias, ao ligar para um velho amigo meu, descobri que ele falecera, vítima de um infarto fulminante... E, é claro, amigos raramente têm a oportunidade de avisar que estão de partida.
São perdas inestimáveis, mas não porque eles se vão, porque isso deveria ser normal. Anormais são as perdas feitas em vida, faltou mais uma "paella" para ser feita, uma cervejinha para ser bebida em qualquer "happy-hour". Tudo em detrimento da roda-viva, dos trabalhos inadiáveis, dos estudos intermináveis, da manutenção do emprego insubstituível...
É uma pena! Mas, mesmo assim, neste exato instante, é hora de virar a folha e começar uma nova página do diário, na qual a vida nos põe novamente à prova. É preciso, desta vez, acertar mais.
Deito em minha cama, arrumo meu travesseiro e aproveito esses poucos momentos de lucidez, até que a aparente roda-viva da qual me afastei tome conta outra vez da minha vida...