Ao lado uma foto que alguém compartilha no Facebook, que traz uma sutileza no seu texto. Ao contrário da mensagem, eu até acredito que o amor à primeira vista aconteça, mas quando acontece, significa que é apenas uma chance, uma porta que se abre, de tantas outras que se escondem por detrás da primeira. Serão inúmeras decisões compartilhadas e tantas caminhadas até a próxima saída.
Normalmente o que constato é que o efeito "conto de fadas" parece recair sobre algumas pessoas mais desavisadas ou sonhadoras. Elas ficam presas ao final da história, algo como "viveram felizes para sempre". E, na verdade, namoros, núpcias e outras tantas importantes datas são apenas o começo de um novo capítulo. Essa síndrome tem efeitos devastadores sobre os personagens, que acreditam que agora irão viver os frutos da aposentadoria do amor, justamente no momento em que mais precisarão trabalhar. Para ser honesto, para mim a aposentadoria conjugal foi abolida há muito tempo.
O amor não é um projeto que termina no casamento (ou como diriam os americanos: "wedding"). Projetos têm começo, meio e fim. O objetivo só se concretiza ao final. O produto surge no seu término, tal qual uma ponte que fica pronta quando o projeto acaba.
Diferentemente, o amor é uma passagem, uma viagem sem volta (ou como diriam os americanos: "marriage"). Seu resultado não está no fim, e deve ser vivido todos os dias, a cada quilômetro percorrido, a cada lugar visitado, a cada nova descoberta, a cada novo aprendizado... A cada pedacinho construído.
Nem o amor, nem a comunhão dele resultante encerram essa história, essa passagem... Essa viagem. Ao contrário, é preciso acordar todos os dias... E todos os dias refletir... Todos os dias fazer um balanço de tudo que foi feito certo ou errado. Todos os dias avaliar: o que eu posso melhorar em mim; o que eu posso fazer para melhorar essa convivência; em que eu posso contribuir. Mas o mais importante é ponderar se estou feliz. E ao estar feliz, se estou fazendo quem me ama também feliz. A mesma postura vale para quem escolheu você para prosseguir nessa fantástica caminhada.
E nessas reflexões é preciso ser exigente, afinal, seguir em frente juntos não é apenas ver lindas paisagens, novas pessoas, idéias e culturas. É também carregar uma pesada bagagem; conciliar escolhas; sacrificar oportunidades; abrir mão do seu tempo livre e em alguns momentos ser ajudado também... Por que não?
Ser radical é, mesmo nos momentos em que parece que tudo vai bem, questionar-se... Será que está valendo a pena? Essa reflexão precisa ser feita todos os dias... Responda-se: por que está valendo a pena? O que estou perdendo está me magoando? Você está aborrecido com alguma coisa? O que estou recebendo desse amor é aquilo que eu quero? É aquilo que eu esperava? É o que eu preciso?
Seja sistemático no questionamento. Seja tempestivo e perseverante sempre: todos os dias faça o seu diagnóstico.
Porém, ao tomar uma decisão faça-o por meio de um plano de fidelização. Acumule milhas em cada trecho e só então, depois de um certo tempo, troque os seus pontos. É o tempo de maturação de uma decisão, que será tomada de cabeça fria e não envolto em uma série de sentimentos que reprimem a razão.
É importante desenvolver o hábito de refletir sobre as coisas e entender que isso não nos custa muito e podemos fazer a qualquer tempo. O erro que cometemos é dedicar muito pouco ou quase nada a essa reflexão tão importante. Damos pouca importância às elaborações a respeito da nossa vida e deixamos passar em branco assuntos importantíssimos. São tratados como pontos de milhagem que expiram e saem do nosso saldo. Passam e se tornam inúteis, quando poderiam proporcionar instantes maravilhosos. E essa pouca importância que oferecemos às nossas meditações diárias transformam minúsculas ervas daninhas em imensas pragas e promovem decisões irresponsáveis e compulsivas sobre problemas que se acumularam e explodem de repente. Nessa hora, sentenciamos sem direito ao contraditório. Sem muitas vezes entender que essa punição é também um autoflagelo. Condenamos nossa própria felicidade, sem ao menos entender porque deixamos de amar e nos amar.
Amar não é perdoar, mas também não é destruir. Amar é dar-se a si mesmo a graça de ser feliz e fazer feliz. E o amor? Quando for contabilizar suas milhas, procure folhear o álbum de fotografias e descubra o que você enxerga. Aquela pessoa que sorri na foto é você? Quanto há de esforço em esboçar o sorriso, quanto de maquiagem esconde o seu rosto? "Ah! Está natural? Que bom! Seja feliz e continue sendo feliz". Pode parecer estranho, mas todos os dias você precisa tomar a decisão de ser feliz... Mal comparando, ser feliz é fazer no nível espiritual o mesmo que fazemos com os nossos bens materiais. Sendo assim, ser feliz, não é emprestar dinheiro para gastar com tudo que queremos hoje e no futuro amargar o ônus da dívida. Nem tão pouco é guardar aquilo que poderia gastar hoje para poupar e usá-lo lá na frente, correr o risco até aquele futuro tão incerto. Ser feliz é um exercício de sabedoria, entre o quanto gastar, o quanto poupar, e identificar o momento mais adequado para viver cada coisa.
Não se esqueça jamais que certas coisas podem terminar antes de acabar... Parece bobagem, mas existe um trecho da cerimônia do casamento, que diz algo como "... até que a morte os separe...". Pois bem, ao contrário do que muitos entendem desse pedaço da cerimônia, eu reforço toda a ideia que desenvolvi até aqui. Casamento não é "wedding", é "marriage". O amor transcende a qualquer marco que as pessoas costumam cultuar. Transcende a qualquer perdão, porque não é culpa. Datas servem apenas como pontos de controle da sua evolução espiritual no mundo do amor. Casamento é um processo contínuo, que termina com a morte. "Ah! Mas o amor pode acabar antes da morte!!!" É claro que sim. O amor começa "à primeira vista". As pessoas ficam, namoram, separam, algumas "noivam" e algumas até "casam". E o amor pode acabar em qualquer desses trechos... Antes ou depois, por uma série de motivos. E ao terminar não significa que a alegria estampada nas fotografias irá deixar de ter significado ou deixarem de ser boas recordações. Fotografias envelhecem, assim como as pessoas. Tudo terá valido a pena se você foi feliz enquanto esteve em viagem...
"Tudo vale a pena, quando a alma não é pequena... Fernando Pessoa".

Nenhum comentário:
Postar um comentário