Esses dias lembrei-me de um relato do cotidiano de um casal de idosos...
Rotineiramente, durante décadas, no café da manhã eles entregavam ao outro a parte que mais gostavam do pão (o miolo ou a casca). Foi assim durante quase toda a vida, até que um dia um deles resolve saborear o que gosta, trocando as ofertas. A esposa agradeceu profundamente o gesto do marido. Apesar de gostar da casca, sempre a ofereceu ao esposo, pois ele merecia a melhor parte do pão. O esposo por sua vez também agradeceu, contudo, disse que gostava era do miolo do pão e o entregava para que ela ficasse com o que considerava a melhor parte.
Não só o casamento, mas toda forma de relacionamento, deveria ser um lugar melhor se todos aprendessem a ouvir o que o outro tem a dizer. Apesar de existirem ambientes altamente sinceros, para manter um certo silêncio, colocamos sem perceber alguns tampões em nossos ouvidos, que obstruem a nossa capacidade de escutar adequadamente.
Seria tão importante compreender que muitas vezes o que é melhor para nós não é o melhor para os outros.
E que administrar as diferenças é algo muito difícil e complicado, por isso, casar-se não é escolher alguém com a qual ocorra uma reação química indescritível. Isso é paixão.
O casamento necessita, além de paixão e além de amor, de combustível para que a relação seja duradoura. Por isso, é preciso saber se ambos partilham dos mesmos projetos e gostem de pensar e trabalhar em equipe.
Eu já tive a oportunidade de contemplar dois barcos que procuravam algum porto para atracar. Certo dia encontraram... Um deles ali resolveu permanecer, pois sentiu-se seguro. O outro decidiu ficar o suficiente para descansar e seguir para o próximo destino. Depois disso nunca mais se encontraram.
Ter um objetivo comum, momentâneo, procurar juntos um porto seguro pode dar a falsa impressão de que a outra pessoa guarda uma certa afinidade, quando na verdade, oferecer mais tempo seria um ingrediente essencial, para se conhecerem adequadamente, poder ouvir um pouco mais, desmistificar e perceber se os projetos de vida levam para os mesmos caminhos. A vida é uma degustação de momentos, sem atropelos e não deve jamais se transformar unicamente em rotina.
A sensação de solidão é um mau sintoma. Casamento é a comunhão daquilo que somos, daquilo que gostamos e daquilo que queremos. Às vezes, só o tempo pode responder a maioria das perguntas.
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